Palestina – tragédia e esperança no século XXI

 

MARCELO GUIMARÃES LIMA*

Apresentação do autor ao livro recém-publicado

1.

A guerra de extermínio conduzida pelo Estado de Israel contra a população civil indefesa em Gaza, guerra apoiada pelo establishment político-ideológico dos Estados Unidos e secundada por seus vassalos da União Europeia, é já a grande tragédia deste relativamente jovem século XXI. Século que herdou e expandiu exponencialmente os impasses, as contradições, tragédias e fracassos, em suma, a crise histórica e civilizacional do último período do século passado.

Com a ideia de esperança em nosso título, queremos apontar o atual martírio palestino como um ponto de inflexão na presente crise histórica. A enorme crueldade infligida aos palestinos, sejam eles jovens, velhos, mulheres, crianças, anciãos, pessoas com necessidades especiais, enfermos, quer dizer, a todos os vulneráveis seres humanos de Gaza, marca um limite à normalização da barbárie e assinala, nas manifestações públicas internacionais a favor dos palestinos, uma mudança de rota na aparente paralisia do presente, o reino inconteste da ideologia e das políticas neoliberais no centro das questões cruciais do nosso século e da luta de libertação na Palestina.

O martírio palestino descortina hoje um horizonte imediato de oposição de vida ou morte contra a ideologia e as práticas totalitárias do capitalismo global que tem dominado a vida das populações em diversos países e regiões desde a chamada “revolução conservadora” de Margaret Thatcher e Ronald Reagan na segunda metade do século XX. No seu período atual, o capitalismo global se mostra abertamente como promotor de guerras e genocídio como condição de sua sobrevivência.

Na sua encarnação neoliberal, o atual estágio do modo de vida e morte do capitalismo tardio tenta resolver seus impasses e contradições, seus fracassos e sua fragilidade exposta, extraindo um enorme custo em vidas humanas e destruição ambiental.

A ascensão da extrema direita com Donald Trump nos Estados Unidos e demais líderes extremistas na Europa, Ásia e América Latina expressou e expressa a dificuldade crescente de administração de um sistema social e econômico inerentemente instável, baseado no conflito permanente que opõe entre elas as classes, nações, grupos étnicos, comunidades religiosas, minorias, etc. de formas mais e mais evidentes e brutais, alimentando uma crise global de crescentes incertezas que demanda uma resposta global contra a dominação, a opressão, a escravização dos indivíduos e das coletividades a favor dos proprietários privados do nosso presente coletivo e de um futuro que se apresenta como ausência de futuro para a maioria.

2.

Neste sentido, somos todos palestinos e a tragédia da Palestina, o horror de um genocídio perpetrado dia após dia como um espetáculo midiático extremamente violento, obsceno, aterrador, é de forma imediata o nosso destino. Como já se pode ver na África hoje em conflitos violentos étnicos e nacionais produzindo outros genocídios, e que tendem a se alastrar para outras partes do planeta, para as várias regiões em processos avançados de crise e polarização, caso não seja contestado efetivamente o domínio desagregador, turbulento, cruel e sanguinário das elites do poder global representado por aqueles que financiam e lucram com as guerras, com a destruição do meio ambiente e a destituição da maioria global.

Na história da arte moderna, David, Goya, Delacroix, Courbet, Géricault, Picasso, entre outros, são exemplos de artistas que reagiram aos conflitos de seu tempo, como testemunhas e como participantes, expressando o significado humano e universal de conflitos históricos gerais e de combates específicos e tragédias locais.

A presente série de trabalhos teve início como uma reação pessoal, emocional, ao espetáculo nauseabundo da representação mediática naturalizando a guerra e a barbárie. Ela se insere em uma vertente que inciei nos anos 90 com uma série temática sobre a tortura na ditadura militar e com a representação da catástrofe desnatural do tsunami e o resultante incidente nuclear de Fukushima no Japão em 2011, série denominada “A Imaginação do Desastre” exibida em Dubai em 2012.

No presente caso, trata-se da “Imaginação da Barbárie”, uma reflexão em imagens sobre o contexto e a condição humana, os impasses e os desafios que afetam hoje corações e mentes, questionando o que somos ou acreditamos ser, e questionando o poder simbólico e material dos que decidem por nos sobre a nossa vida e morte material e simbólica.

A arte nos ajuda a confrontar a barbárie, a crueldade humana sem o véu de ilusões reconfortantes.

Na representação artística, nossa reação emocional primeira se torna parte de uma resposta ativa, que supera a passividade do sentimento momentâneo ao preservar, desdobrar, desenvolver na experiência emocional revivida e representada nossa capacidade de autorreflexão e autonomia subjetiva. Deste modo, a arte nos permite olhar nos olhos da tragédia sem sucumbir à violência e ao desespero.[1]

*Marcelo Guimarães Lima é artista plástico, pesquisador, escritor e professor.

Referência


Marcelo Guimarães Lima. Palestina: tragedy and hope in the 21st Century. Nyack, New York, Whimperbang Press, 2026. [https://whimperbangpress.com/Our-Books/]

Nota


[1] A presente série de trabalhos está reunida em livro por convite e iniciativa do editor Raymond Prucher, ele próprio designer, poeta e artista plástico afeito às questões ético-estéticas do nosso tempo.



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