SOBRE A QUARTA GUERRA MUNDIAL
Marcelo Guimarães Lima
A Terceira Guerra Mundial já aconteceu. Segundo o filósofo italiano Costanzo Preve (1943-2013), ocorreu entre 1945 e 1989, e deve ser caracterizada de modo amplo como “confronto global de tipo estratégico”. Em sentido estrito, define-se a guerra como confronto entre forças armadas de estados soberanos. Neste sentido, o século XX assistiu a duas guerras ditas “mundiais”, a Primeira de 1914 a 1918 e a Segunda de 1939 a 1945.
Na acepção “oficial”, observa Costanzo Preve em seu livro de 2008, “La Quarta Guerra Mondiale” , não existiu uma Terceira Guerra, ainda que o período dito da “Guerra Fria”, período de confronto entre o Liberal-Imperialismo comandado pelos EUA e o campo da chamada União Soviética, tenha sido vivido como de confrontos “quentes”, cruéis, mortíferos nas periferias do chamado “mundo civilizado” europeu-norte-americano.
No Brasil, a Guerra Fria repercutiu com o cortejo de misérias, espoliação, assassinatos, torturas do golpe de 1964 e a ditadura militar que transformou as Forças Armadas brasileiras em apêndice do poder militar e ideológico norte-americano.
Segundo o filósofo, a Segunda Guerra Mundial foi, na verdade, um amálgama de três conflitos distintos: uma guerra europeia “tradicional” opondo Alemanha e Itália contra Inglaterra e França, o confronto ideológico e militar entre fascismo e comunismo, e uma guerra imperial dos EUA para ocupar e subordinar econômica e geopoliticamente a Europa e o Oriente Próximo. Ainda que estas três guerras distintas coincidissem no tempo, a sua unificação simbólica, como observa, foi produto de uma operação ideológica posterior.
Para o filósofo, o contexto socio-histórico da Terceira Guerra diferiu fundamentalmente daquele da Segunda Guerra e esta novidade explica em parte a sua aparente “invisibilidade” no discurso oficial enquanto período específico de guerra propriamente dita e não simplesmente de “disputa ideológica” genérica. Guerra de fato enquanto “guerra total” para o coração do sistema de poder mundial, o sistema dos vencedores da Segunda Guerra os quais, em nome do triunfo da liberdade e da democracia, julgaram e condenaram seus inimigos nos tribunais da Alemanha e do Japão, ao mesmo tempo em que bombardeavam impunemente as populações civis de Hiroshima e Nagasaki, preparando, no contexto assim inaugurado da chamada Guerra Fria, os conflitos seguintes no Sudoeste Asiático, Ásia Central, Oriente Próximo, África e América Latina. Guerras “quentes” com seus cortejos reais de destruição, terror e misérias, massacres, assassinatos, torturas, etc.
A Terceira Guerra Mundial terminou em 1989 com a derrocada da União Soviética. O regime consolidado por Stálin no período pós-Revolução de 1917 se revelou afinal como um impasse histórico de grandes proporções, sistema “não-reformável” para a sua elite dirigente formada ela mesma no interior do aparato estatal-partidário stalinista. Desde então, nos encontramos já em plena Quarta Guerra Mundial, para a compreensão da qual é preciso formular uma nova perspectiva que possa dar conta da sua novidade histórica, das suas contradições, dos paradoxos de uma conjuntura inédita.
Costanzo Preve foi na sua época um marxista dissidente e, ao mesmo tempo, um dissidente do marxismo. Aqui seria necessário esclarecer os termos: o que é ou foi o marxismo, o que designamos por este termo ao seu modo “polivalente”, e o que podemos caracterizar como “dissidência”, contestação ou “desvio” de significados estabelecidos, reformulação doutrinária e/ou teórica, reorientação prática, ressignificação geral, etc. O interesse e os problemas das ideias do filósofo estão justamente na confluência destes dois aspectos distintos ou complementares, conforme perspectivas diversas, de eventuais sobreposições, contradições e conflitos entre a crítica imanente, como método e perspectiva essencial do marxismo, de modo explícito ao menos desde a obra seminal de G. Lukacs, e a ruptura com categorias estabelecidas, formulações assentadas, ideias reconhecidas, rupturas com práticas e formas institucionais vigentes, com seus desdobramentos vários, políticos, teóricos, etc. Ou, em linguagem figurativa, jogar fora a criança junto com a água suja do banho.
Formado na Itália, na Grécia e na França, o jovem filósofo peripatético-europeu participou dos embates teóricos de seu tempo. Sua obra teórica foi, em sentido ao mesmo tempo geral e específico, uma tentativa de resposta à crise ou crises do comunismo como sistema, ao mesmo tempo um documento sobre o período e uma elaboração particular a respeito do significado da crise do marxismo institucional, a implosão do comunismo dito, com propriedade ou não, “soviético”, o fim da União Soviética e a dispersão dos vários estados da sua esfera de influência, e o fim da influência dos até então importantes partidos comunistas na vida político-institucional na França e na Itália.
Para Preve, a derrocada da União Soviética significou, de modo definitivo, o fim do “comunismo histórico” enquanto experiência sócio-histórica e das doutrinas a ele associadas. Contexto que possibilita uma necessária releitura da obra de Marx. O filósofo nega, de modo peremptório, a crítica “moralista”, típica do nosso tempo, da obra de Marx e afirma de modo claro que não há identificação entre a obra pioneira e fértil do pensador alemão e o “comunismo histórico” ou “marxismo”, fruto dos novos contextos do capitalismo europeu e das várias transformações do movimento operário a partir da morte de Marx.
Como o exame das ideias de Marx pode ainda nos ajudar a entender as heranças e o percurso histórico do século XX, tendo em conta igualmente a impossibilidade de retorno a um imaginário “marxismo original” é a questão central para o filósofo italiano. Podemos dizer que, ao menos na formulação, Preve não se furtou à dificuldade intrínseca do problema. O ponto principal para o autor italiano foram as transformações do capitalismo contemporâneo que, entre outros resultados, alterou as bases das formações de classe, incluindo tanto o proletariado quanto a própria burguesia.
A hiper-mercantilização das relações sociais no capitalismo contemporâneo afetou de modo essencial as bases materiais e ideológicas das identidades de classe. Vivemos assim um período já “pós-burguês e pós-proletário”. A burguesia foi, no passado, classe portadora de uma cultura própria, com seus primórdios na Renascença Italiana. As elites atuais, destituídas desta e talvez de toda e qualquer cultura como instância de autonomia relativa de cosmovisão e valores, encarnam o individualismo exacerbado, expressão do interesse material “nu e cru” que define a sociabilidade geral elaborada e imposta pelo neoliberalismo. Algo que pode nos ajudar a compreender, por exemplo, o sucesso eleitoral de um Donald Trump nos EUA entre as minorias, os trabalhadores, imigrantes, pequenos agricultores, funcionários públicos, etc., grupos sociais que pagaram e pagam o preço das inúmeras iniciativas nos seus dois mandatos de redistribuição massiva da riqueza nacional em favor do capital.
Partindo da constatação da atuação de uma esquerda social-liberal, adequada ao contexto vigente, e mesmo de uma extrema esquerda cuja contestação não ultrapassa o campo das identidades como identidades do imaginário do neoliberalismo, Preve conclui pela “inutilidade” da distinção corrente entre direita e esquerda. Proposição que, penso eu, pode dar lugar a alguns (ou vários) equívocos. Partindo de uma inicial averiguação “empírica”, torna-se bastante problemática num contexto de anomia social planejada e confusão ideológica interessada.
A distinção direita – esquerda estabelecida segundo o filósofo por critérios formais específicos do passado, pode ser objeto de crítica qualificada, como tudo mais, já o apagamento de distinções fundamentais corre o risco de se aproximar da operação ideológica específica da confusão sistemática reinante na chamada pós-modernidade, aspecto objetivo e não puramente “subjetivo” da nossa conjuntura.
Para muitos de seus críticos , uma deriva à direita do filósofo estaria exemplificada nas suas interlocuções tardias com pensadores de direita como o francês Alain de Benoist e o inusitado pensador russo Alexandre Dugin, e na recepção de alguns de seus temas entre a intelectualidade militante de extrema direita na Itália e na Europa. O tema da Quarta Guerra Mundial, sob diversas perspectivas, incluindo perspectivas místicas e apocalípticas, foi tratado nas publicações da extrema direita. O que certamente não pode ser posto simplesmente na conta do filósofo, pois, qualquer que seja a avaliação de suas ideias, não se pode negar que se trata de proposições teórica e historicamente argumentadas, proposições críticas, em seus melhores momentos hipóteses originais a serem testadas, aceitas ou refutadas, e não simples justificativas de preferências e escolhas pré-determinadas.
Por sua parte, Costanzo Preve se definiu sempre como “discípulo de Marx e Hegel”, discípulo igualmente de G. Lukacs cuja ontologia do ser social forma a base da reinterpretação pelo filósofo italiano da história da filosofia grega e europeia em perspectiva explicitamente dialética. E se definiu politicamente como adversário ferrenho dos novos senhores do mundo, da expansão e consolidação de um império dominado pela “potência única” na ordem neoliberal global, os Estados Unidos e seu uso da ideologia dos “direitos humanos” como arma de guerra contra o chamado Terceiro Mundo, o uso do dólar e do sistema financeiro internacional como arma de constrangimento global, o que poderíamos talvez chamar de “controle financeiro universal como continuação do poder militar por outros meios”.
Em sua campanha para reeleição, Donald Trump condenou explicitamente as chamadas guerras contínuas (“forever wars”) dos Estados Unidos pelo mundo. Como tudo que diz respeito ao atual presidente norte-americano, o que é dito hoje, é desdito amanhã num ciclo de afirmações e contra-afirmações que nulificam o que resta do chamado “discurso público”. Como se o curso da história moderna da tão admirada, a “paradigmática” democracia liberal norte-americana, resultasse no poder pessoal do “Generalíssimo Trump” com suas milícias armadas, seus servidores na política institucional, nos meios de comunicação, e seus vários associados na América Latina e no mundo. Entre nós com a extrema direita bolsonarista e seu atual candidato à presidência.
Ao término da Segunda Guerra Mundial centrada na Europa, Albert Einstein observou não saber quando se daria a próxima, a Terceira Guerra, mas que a Quarta seria seguramente um conflito travado “com paus e pedras”.




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